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A teoria do ralo

Luis Fernando Verissimo

Seu nome é Jean-Paul Quelquechose e ele é o maitre de um hipotético restaurante na Côte d'Azur - chamado, aliás, L'Hipotetique. Um velho observador do mar e das fortunas humanas, ele achava que as duas coisas se pareciam. Os ricos também vinham em ondas, como o mar, e mesmo que quebrassem na costa, como as ondas, atrás viriam outros e outros e mais outros. Cada onda era diferente, mas o mar era sempre o mesmo, assim como cada geração de ricos era diferente, mas a riqueza que as impelia para a praia e para o seu restaurante era constante e confiável. Podia subir ou descer, como a maré, mas não falhava. Jean-Paul já passara por períodos de preamar e baixa-mar das fortunas, já vira um nobre arruinado se matar na sua frente, derrubando um faisão flambado na queda, e uma jovem herdeira chorar dentro da “bisque” com a perspectiva da miséria, e uma vez fora obrigado a botar três magnatas falidos e suas mulheres a limpar peixe na cozinha para pagar a conta de um jantar. Mas atrás de cada rico em desgraça vinha um mais rico, onda após onda. Agora não. Que Jean-Paul se lembre, a coisa nunca esteve como agora. As ondas não estão vindo, as ondas só estão indo. É como se o mar se retraísse. Como se o mar que ele via através dos janelões do seu restaurante se esvaziasse. Como se um ralo tivesse sido aberto no fundo do mar.


Foi o que Jean-Paul disse para seu entrevistador, que comentara o pouco movimento do restaurante em plena temporada de inverno.

A teoria do ralo.

- Só pode ser isso. Para onde foi todo o dinheiro? Só pode ter desaparecido por um ralo.

- Os ricos não estão mais vindo?

- Os ricos não são mais ricos.

- Não tem vindo ninguém?

- Personne.

- Nem os americanos?

- Muito menos os americanos.

- Nem os árabes?

- Poucos árabes. Mas dividem os pratos e não dão mais gorjetas.

- Ninguém mais tem dinheiro...

- É um ralo. Só pode ser um ralo.


- Esta crise, então, não é como as outras, Jean-Paul?

- Não é. Passei por todas as outras e sei. Esta é diferente. Esta vai ficar na História. Se houver História depois dela...

- Pelo menos você ainda tem essa vista bonita do mar da Côte, e agora com bastante tempo para contemplá-la.

- Não me fale. Quando olho o mar, só consigo pensar no que ele tem de sobra e ninguém mais tem.

- O quê?

- Liquidez.

- Bom, já vou indo. Obrigado pela...

- Epa, não está esquecendo uma coisa?

- O quê?

- Minha gorjeta.

- Mas nós só conversámos, você não me serviu nada.

- E a filosofia?


Domingo, 1º de fevereiro de 2009.



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